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sábado, 10 de janeiro de 2015

A crise política brasileira está no povo

(Imagem: www.pixabay.com)


Fruto do fraco sistema educacional, da cultura do “jeitinho” e da malandragem instituída, a maior parte da população brasileira - a verdadeira massa - dá-se por satisfeita em apenas votar e pagar impostos, como se desta forma já tivesse cumprido seu papel cidadão. Grande parte vende seu voto por esmolas mascaradas de assistencialismo, vendendo assim também sua ideologia – veja, não estou criticando aqui os méritos do assistencialismo nas políticas sociais, que é mais do que evidente ser prudente e necessário, conforme os próprios fundamentos filosóficos e sociológicos dos direitos humanos e até mesmo para contrabalancear as mazelas do capitalismo, o que está errado é a forma deturpada que partidos se utilizam do assistencialismo com fins eleitoreiros.
De maneira egoística, a maioria dos cidadãos brasileiros não faz questão de exercer a sua cidadania no dia a dia, nas coisas mais corriqueiras, na vida social, deixando de respeitar os direitos do próximo, de cumprir com seus deveres e de exigir os seus direitos, sendo complacente, conivente e de certa forma cúmplice com o status quo de injustiças, imposto por uma minoria no poder.
O anti cidadão basta-se em traçar acomodadamente uma ou outra crítica de baixo calão, pois ele precisa compensar o seu sentimento de incompetência e incapacidade de mudança frente à realidade. Como se não houvesse outra saída, releva-se e vive-se uma vida inteira na ignorância, numa comodidade absurda, num coitadismo conveniente para ambas as partes – opressor e oprimido.
Como se política fosse apenas um joguete, no período eleitoral o anti cidadão levanta a bandeira de um partido apaixonadamente como se estivesse vestindo a camisa do seu time de futebol. Nem percebe que é simples marionete nas mãos de poderosos maquiavélicos! Prefere passar o resto do tempo deixando-se emburrecer pelos canais abertos de televisão – gratuitos, é claro.
Vejo muitos jovens desanimados com a política, desacreditados por um fatalismo desmotivante, causado por enxurradas de notícias negativas na política, como se “política” se resumisse a corrupção e jogos de poder. Jovens estes que serão os responsáveis pelas mudanças que tanto idealizam.
Mas aquele que acorda e enxerga o caminho não se apequena, toma iniciativas e muda a realidade ao seu redor, ao seu alcance, pois POLÍTICA vai muito além de partidos, DEMOCRACIA é muito mais do que eleições, CIDADANIA é muito mais do que pagar impostos e ÉTICA é muito mais do que uma bela palavra.
Ao invés de apenas criticar para se abster de responsabilidade e culpa, aquele que acorda e enxerga o caminho se embasa de informações e dados realmente relevantes e confiáveis, tece críticas construtivas pensando primeiramente no que é certo e que atenda ao maior bem comum, independentemente de partido político, símbolo, legenda, bandeira ou projeto de poder.
Aquele que acorda e enxerga o caminho age em sua comunidade e faz a sua parte. Ele faz a diferença com atitudes que valem mais do que palavras, dividendos ou bens mundanos materiais. Pensa globalmente, mas age localmente.
Aquele que acorda e enxerga o caminho, pensa não só no amanhã, mas nas próximas gerações, toma as rédeas de si próprio, não coloca sua ideologia à venda e não se deixa levar pela correnteza. Ele não dança conforme a música, ele escolhe a música, ou cria a sua própria.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Crítica à Modernidade


“A ganância envenenou as nossas almas, levantou muralhas de ódio, fez-nos chegar à miséria e ao derramamento de sangue. Desenvolvemos velocidade, mas isolamo-nos uns dos outros. A maquinaria que poderia dar abundância deixou-nos na penúria. Os nossos conhecimentos tornaram-nos céticos e cruéis. Pensamos demais e sentimos de menos. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de compaixão. Sem estas virtudes, a vida será violenta.” (filme: O Grande Ditador, Charles Chaplin, 1940)

As palavras acima continuam cabendo perfeitamente nos dias de hoje, o que nos faz concluir que a raça humana pouco aprendeu com seus próprios erros.

O que foi que aconteceu? Onde foi que perdemos o foco?

Guerras nucleares e armamentos cada vez mais destrutivos; sustentabilidade do planeta em perigo; crises frequentes na economia global; aumento nos casos de câncer e stress; miséria e fome enquanto há grande desperdício de alimentos; situação alarmante da criminalidade e ataques terroristas; direitos humanos sendo covarde e constantemente desrespeitados dia a dia; apenas para citar alguns exemplos genéricos que nos fazem questionar o caminho que a humanidade tem traçado em direção à sua evolução (ou diria, devolução?). Valeria a pena tanto sofrimento em nome desse auto intitulado “desenvolvimento”?
Com o Renascimento e o Iluminismo, na Europa, à partir de fins do século XIV, a raça humana parecia ter acordado pra vida, mas em algum momento da história perdemos o “fio da meada”. A utilização da racionalidade por nós seres humanos pensantes e conscientes, apesar de bem fundamentada no século XVII com a Revolução Científica e teoricamente bem intencionada (com a quebra de paradigmas antes limitadores do conhecimento), vem sendo mal e exageradamente utilizada com o passar dos últimos séculos.
A humanidade se deslumbrou e se entorpeceu com todas as potencialidades adquiridas com a revolução científica a ponto de se deixar levar por uma corrente de pensamento moderno, mas de desdobramentos míopes, esquecendo pilares éticos e morais fundamentais.

A racionalidade usada como causa e fim, sem fundamentação humanamente causal, fez a humanidade perder o foco de suas ações e partir para um caminho sem volta de determinismos estéreis, em uma busca frenética por uma modernidade hiper mecanicista e funcionalista, porém essencialmente oca de valores, oca de visão holística; o que vem comprometendo a sustentabilidade do planeta de tal maneira a colocar em risco as nossas próximas gerações.
O pragmatismo da razão, as revoluções industrial e da informação, as rotinas burocráticas passaram a ser mais importantes do que o próprio ser humano e a própria natureza. Por um grande período, nos relacionamentos dos fatores organizacionais e seus efeitos invariavelmente impróprios na natureza, não foram consideradas suas associações orgânicas com a humanidade como um todo.
A racionalidade em si é positiva se for usada com meios e para fins éticos, porém foi deturpada e usada sobremaneira para fins puramente organizacionais e tecnológicos.
Criou-se um sistema econômico baseado exclusivamente no capital, nada na sustentabilidade, que incentiva o hiper consumismo, a ganância por poder e status, a degradação dos recursos naturais, o total desequilíbrio da distribuição de renda, a quebra/burlamento de leis para favorecimentos egoísticos e ilícitos, a competição desenfreada entre as pessoas ao invés da colaboração, a busca pelo enriquecimento individual e a conquista dos padrões do modo de vida moderno propagandeados pela mídia. O individualismo liberal reinou sobre o coletivo.
Passou-se a se ensinar ciência sem fundamentação e riqueza filosóficas. A ciência que deveria ser ensinada para moldar seres humanos dotados de corpo e espírito, capazes de evoluir à partir da filosofia, usando a razão como ferramenta para se obter as respostas sobre a natureza, e principalmente, em consonância com a natureza, passou gradativamente de libertadora a vilã da humanidade.
O evolucionismo dúbio de um “positivismo” lógico radical (que de positivo mesmo há apenas no nome) e o tecnocentrismo instrumental exacerbados do novo mundo moderno, criticados por Habermas entre outros teóricos intelectuais da antropologia / sociologia, tornaram-se as armadilhas que o homo sapiens não deveria ter criado para ter ele mesmo como presa.

Imagens: http://pixabay.com/

sábado, 28 de setembro de 2013

Embate entre culturas

Edward Burnett Tylor, em seu livro Primitive Culture (1871), foi o primeiro antropólogo a definir cultura de forma a acrescentar o caráter de aprendizado, opondo-se à ideia de aquisição inata, conforme segue a definição: “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” (TYLOR, p. 25). Ou seja, cultura está mais atrelada ao ambiente em que o homem está inserido do que ao seu legado genético.

Etnografia é o estudo aprofundado dos aspectos culturais específicos de um povoado, uma comunidade, uma tribo, enfim, o entendimento das nuances culturais de um determinado grupo de pessoas que vivem e compartilham uma determinada cultura. As demonstrações culturais podem ocorrer de três formas diferentes. A primeira forma é a endoculturação (ou enculturação) que trata-se do processo de aprendizado ou adaptação que uma pessoa passa com o objetivo de adequar-se a uma cultura. A segunda é a Socialização (ou internalização) que é quando os traços que caracterizam uma cultura internalizam-se em uma pessoa, ou seja, ela torna-se parte daquela cultura e passa a ser um modelo da mesma. E a terceira é a Aculturação que é quando duas culturas diferentes se influenciam e se inter relacionam.

Bem como qualquer forma de manifestação cultural, a aculturação é um tipo de processo que ocorre desde os primórdios da civilização humana quando, por exemplo, tribos de culturas diferentes entravam em conflito. Podemos citar outros exemplos clássicos de aculturação como o fenômeno helenístico, as cruzadas, as guerras, as dominações imperialistas, o período das grandes navegações e descobrimentos, o mercantilismo, as missões jesuíticas, entre outros.

Com a globalização e a evolução das tecnologias de comunicações, mais evidenciada pela internet, manifestações culturais de aculturação indiretamente tornaram-se mais corriqueiras do que antes, quando não havia tanta facilidade de comunicação e difusão de informações pelo mundo todo. Hoje, é normal nos comunicarmos com pessoas de diferentes nacionalidades, assistirmos a programas de TV do exterior, aprendermos sobre outras culturas através de filmes, documentários, cursos, palestras, tanto com objetivo profissional quanto pessoal. A comunicação e as informações fluem de maneira líquida e ininterrupta. Redes sociais interligam pessoas das mais variadas espécies através de interesses dos mais inimagináveis gêneros. Estamos na era da informação. No entanto, a liberdade atual decorrente desta evolução tecnológica pode causar problemas de etnocentrismo, quando uma cultura é tida como exemplar a ser seguida por outras, tornando essas cultural e ilusoriamente inferiores àquela.

A Antropologia, através da etnografia, defende o relativismo cultural, em que cada cultura deva ser repeitada e considerada como ideal no seu ponto de vista para o seu povo. Não existe cultura mais evoluída ou menos evoluída. A riqueza cultural de cada povo deve ser mantida através do enaltecimento de suas diferenças, características e particularidades.

Embora vivamos num país cuja cultura seja resultado de uma grande aculturação, com exemplos positivos e negativos de etnocentrismo, cada região desenvolveu sua própria cultura, mesmo que plural, e evoluiu à partir disto. Nossa pluralidade faz parte da nossa identidade cultural. Mesmo assim, temos exemplos de descendentes de emigrantes de outros países que respeitam e ensinam seus costumes ancestrais, geração após geração, com o objetivo de perpetuar suas culturas. Neste ponto, quando trata-se de relacionamentos inter culturais, podemos dizer que estamos bem acostumados e que temos vantagens em acolher e respeitar culturas alheias em relação à maioria dos outros países. Porém isto claramente não justifica as barbáries sofridas por civilizações indígenas devido a vários processos de aculturação e dominação arbitrários; e que ainda vem sofrendo (vide o caso Belo Monte), com perda de territórios, extermínio de civilizações e consequentes perdas culturais incalculáveis e irremediáveis. O impacto cultural sofrido por inúmeras civilizações ancestrais, não apenas no Brasil como em vários outros países como Austrália e México, em detrimento de dominações territoriais e interesses império capitalistas, foi tão devastador que não há parâmetros para calcularmos o tamanho do prejuízo cultural para as gerações atuais e do futuro, dada a enorme subjetividade da questão.

Alessandro de Cristo Moleta