sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Nova música experimental

Após um certo hiato, eis um novo som no meu projeto experimental, "Grilo no Carrossel do Dr. Parnassus" - a trilha mais psicodélica e experimental que já publiquei até o momento. Trata-se de apenas um trecho de alguns minutos sintetizado de uma performance ao vivo totalmente livre de quase meia hora. Faz-me lembrar um pouco do início da tropicália e dos primeiros sons do Pink Floyd nos anos 60.
Dr. Parnassus é o mago do filme "O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus", o qual eu recomendo.


Antes de ouvir, relaxe, feche os olhos, respire fundo e esvazie a mente. Se possível, ouça num fone de ouvido.




Felipe Kertscher - flauta transversal e vocal
Jhon Baiano - bateria
Alessandro Moleta - sintetizador

Felipe Kertscher
Jhon Baiano




quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Filosofia Existencial no Tropicalismo

Em qualquer sociedade, os fatos se inter-relacionam no tempo e a realidade é fruto de acontecimentos anteriores, então torna-se interessante o entendimento da história para a compreensão da cultura.
Tropicália - 1968Nos anos 60, o Brasil estava sob regime militar e sofria demasiada repressão intelectual e artística. Aliado a esse fator, há o surgimento forte da contra cultura nos movimentos de vanguarda artística ocidental, como sublimação de uma juventude pensante, cada vez mais tomando posse da liberdade de expressão que tem direito, socialmente ativa em resposta a uma geopolítica mundial angustiante de guerras, fome, violência, miséria, repressão, exploração e totalitarismos. No Brasil resultou no Tropicalismo ou Tropicália – uma versão “tropical” do “flower power” norte americano? Não, muito mais rico e profundo do que simplesmente isso. O tropicalismo se caracterizou pela arte como forte expressão do estado de espírito de sua época, a fusão de linguagens, a quebra de paradigmas, a sua influência na música, na moda, nas artes plásticas, na literatura, no cinema, na política, em fim, na cultura geral...
Após a bossa nova dos anos 50 e 60, o tropicalismo foi o movimento artístico de maior riqueza criativa e que mais floresceu a brasilidade para o mundo, com nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Glauber Rocha, Os Mutantes, Tom Zé, Novos Baianos, Jorge Benjor, Gal Costa, Maria Bethania, Torquato Neto, Jorge Mautner, Hélio Oiticica, Lygia Clark, José Celso Martinez Corrêa, etc. - sugiro o documentário “Tropicália” (2012) do diretor Marcelo Machado.
Para entendermos melhor a filosofia por trás da Tropicália, é necessário introduzir brevemente sobre o francês Jean Paul Sartre (1905 – 1980), um dos filósofos mais brilhantes e representativos do século XX, apegou-se à leitura desde criança, foi músico e ator talentoso na juventude, quando despertou para a filosofia pesquisando textos de Descartes, Spinoza, Kant, Nietzsche, entre outros. Pacifista e socialista, Sartre militou politicamente em causas de esquerda, lutando ativamente por revolução e justiça social. Polêmico, recusou-se a receber o prêmio Nobel de literatura em 1964 como forma de protesto contra as demagogias do institucionalismo das organizações oficiais.
A filosofia existencialista de Sartre “condena” o homem à responsabilidade por seu destino e tem neste fundamento existencial a base para sua liberdade, filosofia esta que inspirou os tropicalistas a lutar por liberdade de expressão, ao engajamento e à crítica ao “estabelecido”, às tradições e à própria cultura.

“Nós brasileiros, não devíamos imitar, más sim devorar a informação nova, viesse de onde viesse, ou nas palavras de Haroldo de Campos, ‘assimilar sob espécie brasileira a experiência estrangeira e reinventá-la em nossos termos, com qualidades locais iniludíveis que dariam ao produto resultante um caráter autônomo e lhe confeririam, em princípio, a possibilidade de passar a funcionar, por sua vez, num confronto internacional, como produto de exportação.’” (VELOSO, Verdade Tropical, 1997, p.247)
Sarte e sua esposa Simone de Beavoir visitaram o Brasil em 1960 onde passaram dois meses participando de movimentos sociais, assimilando cultura e deixando uma impressão permamente nas terras tupiniquins, tendo proposto “uma literatura popular engajada, que tivesse como objetivo despertar para o reconhecimento pelo povo de sua condição social impulsionando à ação revolucionária” (Adriano Ibiapina Ferreira).
Finalizo com uma frase de Sarte que sintetiza sua filosofia existencial:
“O homem não é senão o seu projeto, e só existe na medida em que se realiza.”


sábado, 10 de janeiro de 2015

A crise política brasileira está no povo

(Imagem: www.pixabay.com)


Fruto do fraco sistema educacional, da cultura do “jeitinho” e da malandragem instituída, a maior parte da população brasileira - a verdadeira massa - dá-se por satisfeita em apenas votar e pagar impostos, como se desta forma já tivesse cumprido seu papel cidadão. Grande parte vende seu voto por esmolas mascaradas de assistencialismo, vendendo assim também sua ideologia – veja, não estou criticando aqui os méritos do assistencialismo nas políticas sociais, que é mais do que evidente ser prudente e necessário, conforme os próprios fundamentos filosóficos e sociológicos dos direitos humanos e até mesmo para contrabalancear as mazelas do capitalismo, o que está errado é a forma deturpada que partidos se utilizam do assistencialismo com fins eleitoreiros.
De maneira egoística, a maioria dos cidadãos brasileiros não faz questão de exercer a sua cidadania no dia a dia, nas coisas mais corriqueiras, na vida social, deixando de respeitar os direitos do próximo, de cumprir com seus deveres e de exigir os seus direitos, sendo complacente, conivente e de certa forma cúmplice com o status quo de injustiças, imposto por uma minoria no poder.
O anti cidadão basta-se em traçar acomodadamente uma ou outra crítica de baixo calão, pois ele precisa compensar o seu sentimento de incompetência e incapacidade de mudança frente à realidade. Como se não houvesse outra saída, releva-se e vive-se uma vida inteira na ignorância, numa comodidade absurda, num coitadismo conveniente para ambas as partes – opressor e oprimido.
Como se política fosse apenas um joguete, no período eleitoral o anti cidadão levanta a bandeira de um partido apaixonadamente como se estivesse vestindo a camisa do seu time de futebol. Nem percebe que é simples marionete nas mãos de poderosos maquiavélicos! Prefere passar o resto do tempo deixando-se emburrecer pelos canais abertos de televisão – gratuitos, é claro.
Vejo muitos jovens desanimados com a política, desacreditados por um fatalismo desmotivante, causado por enxurradas de notícias negativas na política, como se “política” se resumisse a corrupção e jogos de poder. Jovens estes que serão os responsáveis pelas mudanças que tanto idealizam.
Mas aquele que acorda e enxerga o caminho não se apequena, toma iniciativas e muda a realidade ao seu redor, ao seu alcance, pois POLÍTICA vai muito além de partidos, DEMOCRACIA é muito mais do que eleições, CIDADANIA é muito mais do que pagar impostos e ÉTICA é muito mais do que uma bela palavra.
Ao invés de apenas criticar para se abster de responsabilidade e culpa, aquele que acorda e enxerga o caminho se embasa de informações e dados realmente relevantes e confiáveis, tece críticas construtivas pensando primeiramente no que é certo e que atenda ao maior bem comum, independentemente de partido político, símbolo, legenda, bandeira ou projeto de poder.
Aquele que acorda e enxerga o caminho age em sua comunidade e faz a sua parte. Ele faz a diferença com atitudes que valem mais do que palavras, dividendos ou bens mundanos materiais. Pensa globalmente, mas age localmente.
Aquele que acorda e enxerga o caminho, pensa não só no amanhã, mas nas próximas gerações, toma as rédeas de si próprio, não coloca sua ideologia à venda e não se deixa levar pela correnteza. Ele não dança conforme a música, ele escolhe a música, ou cria a sua própria.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Crítica à Modernidade


“A ganância envenenou as nossas almas, levantou muralhas de ódio, fez-nos chegar à miséria e ao derramamento de sangue. Desenvolvemos velocidade, mas isolamo-nos uns dos outros. A maquinaria que poderia dar abundância deixou-nos na penúria. Os nossos conhecimentos tornaram-nos céticos e cruéis. Pensamos demais e sentimos de menos. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de compaixão. Sem estas virtudes, a vida será violenta.” (filme: O Grande Ditador, Charles Chaplin, 1940)

As palavras acima continuam cabendo perfeitamente nos dias de hoje, o que nos faz concluir que a raça humana pouco aprendeu com seus próprios erros.

O que foi que aconteceu? Onde foi que perdemos o foco?

Guerras nucleares e armamentos cada vez mais destrutivos; sustentabilidade do planeta em perigo; crises frequentes na economia global; aumento nos casos de câncer e stress; miséria e fome enquanto há grande desperdício de alimentos; situação alarmante da criminalidade e ataques terroristas; direitos humanos sendo covarde e constantemente desrespeitados dia a dia; apenas para citar alguns exemplos genéricos que nos fazem questionar o caminho que a humanidade tem traçado em direção à sua evolução (ou diria, devolução?). Valeria a pena tanto sofrimento em nome desse auto intitulado “desenvolvimento”?
Com o Renascimento e o Iluminismo, na Europa, à partir de fins do século XIV, a raça humana parecia ter acordado pra vida, mas em algum momento da história perdemos o “fio da meada”. A utilização da racionalidade por nós seres humanos pensantes e conscientes, apesar de bem fundamentada no século XVII com a Revolução Científica e teoricamente bem intencionada (com a quebra de paradigmas antes limitadores do conhecimento), vem sendo mal e exageradamente utilizada com o passar dos últimos séculos.
A humanidade se deslumbrou e se entorpeceu com todas as potencialidades adquiridas com a revolução científica a ponto de se deixar levar por uma corrente de pensamento moderno, mas de desdobramentos míopes, esquecendo pilares éticos e morais fundamentais.

A racionalidade usada como causa e fim, sem fundamentação humanamente causal, fez a humanidade perder o foco de suas ações e partir para um caminho sem volta de determinismos estéreis, em uma busca frenética por uma modernidade hiper mecanicista e funcionalista, porém essencialmente oca de valores, oca de visão holística; o que vem comprometendo a sustentabilidade do planeta de tal maneira a colocar em risco as nossas próximas gerações.
O pragmatismo da razão, as revoluções industrial e da informação, as rotinas burocráticas passaram a ser mais importantes do que o próprio ser humano e a própria natureza. Por um grande período, nos relacionamentos dos fatores organizacionais e seus efeitos invariavelmente impróprios na natureza, não foram consideradas suas associações orgânicas com a humanidade como um todo.
A racionalidade em si é positiva se for usada com meios e para fins éticos, porém foi deturpada e usada sobremaneira para fins puramente organizacionais e tecnológicos.
Criou-se um sistema econômico baseado exclusivamente no capital, nada na sustentabilidade, que incentiva o hiper consumismo, a ganância por poder e status, a degradação dos recursos naturais, o total desequilíbrio da distribuição de renda, a quebra/burlamento de leis para favorecimentos egoísticos e ilícitos, a competição desenfreada entre as pessoas ao invés da colaboração, a busca pelo enriquecimento individual e a conquista dos padrões do modo de vida moderno propagandeados pela mídia. O individualismo liberal reinou sobre o coletivo.
Passou-se a se ensinar ciência sem fundamentação e riqueza filosóficas. A ciência que deveria ser ensinada para moldar seres humanos dotados de corpo e espírito, capazes de evoluir à partir da filosofia, usando a razão como ferramenta para se obter as respostas sobre a natureza, e principalmente, em consonância com a natureza, passou gradativamente de libertadora a vilã da humanidade.
O evolucionismo dúbio de um “positivismo” lógico radical (que de positivo mesmo há apenas no nome) e o tecnocentrismo instrumental exacerbados do novo mundo moderno, criticados por Habermas entre outros teóricos intelectuais da antropologia / sociologia, tornaram-se as armadilhas que o homo sapiens não deveria ter criado para ter ele mesmo como presa.

Imagens: http://pixabay.com/

domingo, 31 de agosto de 2014

O Brasil não é mais o País do Futebol!

(fotospublicas.com)

A Copa do Mundo de 2014 começou e acabou com um gosto amargo para o povo brasileiro. Desde o início, já supunha-se que seria a copa da farra, da ladroagem, do oba-oba, da malandragem e da falta de vergonha na cara, como mostrou-se de fato. 
Primeiro ponto, foi construída uma quantidade excessiva de estádios, dinheiro a rodo gasto desnecessariamente, que poderia ter sido usado em prioridades muito mais importantes para o povo (quantos hospitais podem ser feitos com 1 estádio?).
Segundo ponto, estádios em locais onde há pouca ou nenhuma atividade futebolística oficial (Brasília, por exemplo). Estádios que virarão elefantes brancos no meio do nada! 
Terceiro ponto, só nesta copa foi gasto mais do que nas últimas 2 copas juntas! Só este fato já mereceria uma CPI (aquela que não saiu).
Quarto ponto, filme documentário "A Caminho da Copa" (disponível livremente no youtube) mostra famílias inteiras numa das cidades sede sendo criminosamente escorraçadas de seus próprios lares sem o menor respeito e dignidade, para dar lugar a obras “para inglês ver”, a toque de caixa! Ordens inalienáveis da prefeitura! Claramente configurando crime contra os Direitos Humanos. Como se a Copa 2014 justificasse qualquer despautério!



(fotospublicas.com)
Quinto ponto, muitas das obras de infra estrutura, que poderiam até ficar como ótimos “legados da copa” para as cidades, nem sequer saíram do papel!
Sexto ponto, como no Brasil tudo é feito na base do “jeitinho”, o governo aprovou a “flexibilização” nas licitações para que as obras fossem realizadas a tempo, mais irregularidades – leia-se dinheiro por baixo dos panos – passaram desapercebidas.
Sétimo ponto, o governo brasileiro cedeu à Fifa “isenção fiscal geral para patrocinadores e organizadores”, tendo deixado de receber cerca de R$ 1,1 bilhão apenas em impostos federais! O que novamente poderia ser revertido em bem estar social.
E por aí vai... Resumo da ópera: não sou contra futebol, muito menos contra a Copa no Brasil, pois é óbvio que há muitos fatores positivos em se tratando de esporte, cultura e turismo, e precisamos reconhece-los! Mas é ultrajante saber que a “Copa das Copas” foi, na verdade, a “Copa da Injustiça”. Para a Copa, sobraram bilhões, enquanto que para os serviços públicos básicos, como saúde e educação, faltam migalhas.
Não se justifica o argumento de que todo este investimento gerou empregos e renda para a população, pois o mesmo poderia ter sido feito construindo escolas, hospitais e melhorando nossa infra estrutura tão capenga.
Não se justifica inclusive o argumento de que o dinheiro advém do setor privado, pois quem empresta ao BNDES, banco que financiou grande parte das obras, é o tesouro nacional a juros maiores do que os cobrados pelo próprio BNDES, logo, esse déficit vem sendo pago pelo povo brasileiro através dos altíssimos impostos. Além disso, muito do dinheiro para os estádios foi investimento direto das prefeituras – mais usufruto do dinheiro do povo.
O povo não aguenta mais tanta injustiça, tanto descaso, tanto sofrimento, tanta corrupção, tanta falta de vergonha, enquanto os serviços públicos básicos são pífios! O povo inclusive foi às ruas diversas vezes em peso protestar contra a Copa e muitas outras injustiças. Em resposta, o governo não fez praticamente nada, mas não economizou em balas de borracha e opressão! A quantidade de vídeos e material disponíveis na internet sobre o assunto, que deixariam qualquer pessoa estupefata, é gigantesca! 
(fotospublicas.com)
Uma copa linda, mas criminosa! Um povo acolhedor, mas doente, oprimido e ignorante! Como li em algum lugar na internet, “construíram estádios ‘padrão Fifa’, agora falta construir um país em volta deles”.
E por mais incrível que pareça, quando ninguém esperava, no país do futebol, na “Copa das Copas”, jogando em casa, a seleção brasileira sofreu a sua maior humilhação na história, a derrota vexaminosa dos 7x1 contra a Alemanha – o país de 1º. mundo que nos deu aula de futebol e simpatia, uma aula de brasilidade. Nisso devemos tirar a grande lição. Se eles aprenderam tão bem com a gente a jogar futebol, porque não aprendemos um pouco com outros países para nos tornarmos realmente um país desenvolvido? Quem sabe agora o Brasil amadureça nas várias áreas onde tanto precisa, como educação, saúde, ética, justiça, etc. 
A "Copa das Copas" custou caro ao Brasil, mas muito mais caro ao povo brasileiro.

(Parte deste artigo foi publicado no jornal "Folha de Imbituva", ed. Ago/2014 - Alessandro de Cristo Moleta)






segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Conhecimento na Sociedade da Informação


Há milhares de anos atrás, os seres humanos tinham apenas a comunicação falada como percepção e registro de informações. As informações eram armazenadas apenas nas próprias memórias das pessoas e só podiam ser passadas através da fala. Este foi um dos motivos principais para a criação da própria linguagem em si, ou seja, a possibilidade de comunicar-se para a troca de informações.
Com a evolução para a sociedade escrita, através de símbolos que representam a linguagem, as pessoas passaram a registrar as informações em objetos físicos, possibilitando maior aprendizado e evolução do conhecimento científico. Assim, as informações registradas puderam ser consultadas e absorvidas por quem quer que soubesse ler a simbologia da escrita. Logo, o próprio conhecimento da escrita era um conhecimento altamente valorizado.
À partir daí, ao passar dos séculos, houve grande progresso nas ciências e tecnologias empregadas nas diversas formas de trabalho e produção. A era industrial, no século XVIII, surgiu graças a toda esta evolução do conhecimento humano e científico.
Com o decorrer dos séculos, de forma lenta e gradativa, principalmente com a evolução da micro eletrônica e das telecomunicações, a era industrial deu lugar à era da informação. As informações puderam ser armazenadas também de formato digital, ser editadas e transmitidas instantaneamente de qualquer lugar para qualquer lugar no mundo, teoricamente. A tecnologia possibilitou avançarmos da linearidade da sociedade escrita para a multidimensionalidade da sociedade da informação. 
Nos dias de hoje, com a grande possibilidade de convergência de mídias e formatos, o registro de informações em papel é apenas mais uma das diversas formas possíveis de armazenarmos informação, a qual não veio a tornar-se menos utilizada pelo fato do aparecimento do formato digital, em termos gerais. Ou seja, as tecnologias não se substituíram, mas se acrescentaram. Textos, sons e imagens convergem em um único protocolo de comunicação de maneira a possibilitar infinitos links e interações entre a informação, o conhecimento, a experiência, o usuário e a máquina.
Faz-se verdadeira a expressão “Uma imagem vale mais que mil palavras”. Quanto mais rica é a forma como a informação é passada, ou seja, quanto mais sentidos estimular no expectador, maior é a capacidade cognitiva. Por exemplo, apenas palavras escritas são mais difíceis de serem memorizadas do que um vídeo com imagens, sons e narrativas. Logo, a sociedade da informação permite aos seres humanos uma maior e mais rica utilização de suas capacidades cerebrais de aprendizado, pois a quantidade de estímulos é muito maior. Ou seja, nunca o cérebro humano foi tão utilizado. Isto posto, a era do aprendizado tem a tecnologia da informação como grande protagonista e tende a possibilitar uma nova fase de evolução humana, mais especificamente de evolução de suas capacidades cognitivas.
As tecnologias didáticas e pedagógicas evoluíram ao ponto de que “as informações são menos dependentes do professor...ficando para o mestre ajudar o aluno a interpretar os inúmeros dados, relacioná-los e contextualizá-los” (SCHIAVONI, 2008). O auto didatismo é facilitado e incentivado pelas novas técnicas de aprendizado, como as utilizadas em cursos de ensino à distância.
No entanto, segundo Juan Ignacio Pozo, “cada vez se aprende mais e cada vez se fracassa mais na tentativa de aprender” (POZO, 2004) e “as tecnologias da informação estão criando novas formas de distribuir socialmente o conhecimento, que estamos apenas começando a vislumbrar, mas que, seguramente, tornam necessárias novas formas de alfabetização (literária, gráfica, informática, científica, etc.)” (POZO, 2001)
Toda esta evolução tecnológica criou novas formas de exclusão social, entre elas, a chamada exclusão digital. Torna-se então grande desafio garantir que o ser humano saiba utilizar de todas essas novas ferramentas de aprendizado e a criação de políticas públicas bem definidas de educação que aceitem e se adaptem às novas possibilidades tecnológicas. Professores e alunos, antes de tudo, devem aprender a aprender.



 REFERÊNCIAS

SCHIAVONI, Jaqueline E. MÍDIA: O PAPEL DAS NOVAS TECNOLOGIAS NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO. UNESP. São Paulo, SP, 2008.

POZO, Juan Ignacio. A SOCIEDADE DA APRENDIZAGEM E O DESAFIO DE CONVERTER INFORMAÇÃO EM CONHECIMENTO. Revista Pátio, Editora Artmed, Ano 8, Porto Alegre, RS, Agosto / Outubro 2004.

DE NARDI, Daniel. A HISTÓRIA DO TRABALHO. Disponível em: <http://assimfaloudenardi.blogspot.com.br/2007/05/histria-do-trabalho.html>. Acesso em 28/09/2013.

sábado, 28 de setembro de 2013

Embate entre culturas

Edward Burnett Tylor, em seu livro Primitive Culture (1871), foi o primeiro antropólogo a definir cultura de forma a acrescentar o caráter de aprendizado, opondo-se à ideia de aquisição inata, conforme segue a definição: “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” (TYLOR, p. 25). Ou seja, cultura está mais atrelada ao ambiente em que o homem está inserido do que ao seu legado genético.

Etnografia é o estudo aprofundado dos aspectos culturais específicos de um povoado, uma comunidade, uma tribo, enfim, o entendimento das nuances culturais de um determinado grupo de pessoas que vivem e compartilham uma determinada cultura. As demonstrações culturais podem ocorrer de três formas diferentes. A primeira forma é a endoculturação (ou enculturação) que trata-se do processo de aprendizado ou adaptação que uma pessoa passa com o objetivo de adequar-se a uma cultura. A segunda é a Socialização (ou internalização) que é quando os traços que caracterizam uma cultura internalizam-se em uma pessoa, ou seja, ela torna-se parte daquela cultura e passa a ser um modelo da mesma. E a terceira é a Aculturação que é quando duas culturas diferentes se influenciam e se inter relacionam.

Bem como qualquer forma de manifestação cultural, a aculturação é um tipo de processo que ocorre desde os primórdios da civilização humana quando, por exemplo, tribos de culturas diferentes entravam em conflito. Podemos citar outros exemplos clássicos de aculturação como o fenômeno helenístico, as cruzadas, as guerras, as dominações imperialistas, o período das grandes navegações e descobrimentos, o mercantilismo, as missões jesuíticas, entre outros.

Com a globalização e a evolução das tecnologias de comunicações, mais evidenciada pela internet, manifestações culturais de aculturação indiretamente tornaram-se mais corriqueiras do que antes, quando não havia tanta facilidade de comunicação e difusão de informações pelo mundo todo. Hoje, é normal nos comunicarmos com pessoas de diferentes nacionalidades, assistirmos a programas de TV do exterior, aprendermos sobre outras culturas através de filmes, documentários, cursos, palestras, tanto com objetivo profissional quanto pessoal. A comunicação e as informações fluem de maneira líquida e ininterrupta. Redes sociais interligam pessoas das mais variadas espécies através de interesses dos mais inimagináveis gêneros. Estamos na era da informação. No entanto, a liberdade atual decorrente desta evolução tecnológica pode causar problemas de etnocentrismo, quando uma cultura é tida como exemplar a ser seguida por outras, tornando essas cultural e ilusoriamente inferiores àquela.

A Antropologia, através da etnografia, defende o relativismo cultural, em que cada cultura deva ser repeitada e considerada como ideal no seu ponto de vista para o seu povo. Não existe cultura mais evoluída ou menos evoluída. A riqueza cultural de cada povo deve ser mantida através do enaltecimento de suas diferenças, características e particularidades.

Embora vivamos num país cuja cultura seja resultado de uma grande aculturação, com exemplos positivos e negativos de etnocentrismo, cada região desenvolveu sua própria cultura, mesmo que plural, e evoluiu à partir disto. Nossa pluralidade faz parte da nossa identidade cultural. Mesmo assim, temos exemplos de descendentes de emigrantes de outros países que respeitam e ensinam seus costumes ancestrais, geração após geração, com o objetivo de perpetuar suas culturas. Neste ponto, quando trata-se de relacionamentos inter culturais, podemos dizer que estamos bem acostumados e que temos vantagens em acolher e respeitar culturas alheias em relação à maioria dos outros países. Porém isto claramente não justifica as barbáries sofridas por civilizações indígenas devido a vários processos de aculturação e dominação arbitrários; e que ainda vem sofrendo (vide o caso Belo Monte), com perda de territórios, extermínio de civilizações e consequentes perdas culturais incalculáveis e irremediáveis. O impacto cultural sofrido por inúmeras civilizações ancestrais, não apenas no Brasil como em vários outros países como Austrália e México, em detrimento de dominações territoriais e interesses império capitalistas, foi tão devastador que não há parâmetros para calcularmos o tamanho do prejuízo cultural para as gerações atuais e do futuro, dada a enorme subjetividade da questão.

Alessandro de Cristo Moleta